Foi em Setembro que te conheci. Não
sei o dia ao certo, talvez tenha sido dia 20 ou 27. Parece que foi ontem que te vi, pela primeira
vez, a correr destrambelhado como te é típico, em direcção a mim – e já
passaram dois anos. Podia escrever um livro sobre essa noite: a timidez
inicial, a falta de assunto para conversar, a curiosidade em conhecer-te mas, principalmente,
a falta de noção de que, um dia, ias ser para mim o que és hoje. Sabia lá eu
que íamos acabar neste estado. Seria impossível adivinhar que, nos meses que se
seguiram, deixou se fazer sentido falarmos ao telemóvel menos que uma vez por
dia, ou estarmos juntos menos que três vezes por semana. Nunca imaginei passar
tardes de mãos dadas contigo em jardins, a devorar gelados em pleno Inverno e a
apreciar a tua companhia na simplicidade de beijos roubados na bochecha, mais
inocentes e receosos que miúdos. E que, passados apenas oito meses desse
Setembro podias parar o meu mundo por segundos, com o toque doce dos teus lábios
nos meus, e depois da tua língua enrolada na minha, do meu corpo aconchegado do
calor do teu. Como é que posso explicar-te que, a partir dessa noite, vivi
completamente embriagada nos meus sentimentos por ti, no que de novo me davas
todos os dias? Tão embriagada que quando me entreguei totalmente ao teu corpo,
cega de amor, não via imperfeições nenhumas em ti? E que nas noites que se
seguiram, em que nos amávamos como se não houvesse amanhã, não conseguia
acreditar no que me às vezes me dizias, entre beijos “não te apaixones por mim,
vou magoar-te”? Como é que te explico que tal embriaguez de sentimentos me fez
ter uma esperança em ti mais poderosa do que a que tenho em mim? E hoje estamos
assim, quase ultrapassados, quase acabados, quase estranhos. Um quase que dói
mais que fogo. Mas lembro-me como se fosse ontem. Que foi em Setembro que te
conheci.
8 de setembro de 2012
28 de agosto de 2012
23 de agosto de 2012
"Quando
se teve e se perdeu, a falta de amor é estar sozinho no sofá a mudar
constantemente de canal, a ver cenas soltas de séries e filmes e, logo a
seguir, a mudar de canal por não ter com quem comentá-las. Ou, pior,
ainda, é andar ao frio, atravessar a chuva, apenas porque se quer fugir
daquele sofá. E os amigos, quando sabem, não se surpreendem. Reagem como
se soubessem desde sempre que tudo ia acabar assim. Ofendem a nossa
memória. Nós acreditávamos."
José Luís Peixoto
25 de abril de 2012
12 de março de 2012
Como é que se esquece alguém que se ama?
«Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.»
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.»
Miguel Esteves Cardoso, in "Último Volume"
7 de janeiro de 2012
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